Noturno de Chopin


Poema de André Gardel

Um turbilhão de aves cegas

Olhares expressionistas

Murmúrios insanos

Prazeres insaciáveis

Levando carros, dias felizes

Supermercados, cenas de filmes

Viagens, gozos, drinks

Luares, idas à praia

Crianças, quadros, cães e gatos

Se distancia ante meus olhos

Em movimentos disformes, mutantes

Assumindo cores vivas

Pálidas, mortas

Um turbilhão descalço

Desnudo, descarnado

Se lança ao passado

Rolando ribanceiras

Batendo nas pradarias

Acendendo flashs

Cheiros, acordes

Canções

Fotos esmaecidas

Achadas na lixeira

De algum prédio abandonado

Ocupado por mendigos

Usando qualquer papel

Para fazer fogueiras

Para fugir do frio

Da noite

De cactos e ruas

Crimes e cortes

Perdas amargas

Vazios infinitos

Transbordamentos vitais

Um turbilhão de aves cegas

Dilacerando

Meu ser

Membros, órgãos, células

Espalhados

Ao sol

Estalando nas águas

Silencioso

Noturno

De Chopin.

 

 

Eles apareceram de repente

A cabeça pendente

De um...

A perna cruzada

De outro...

A janela de vidro do quarto

Inesperadamente

Um quadro vivo...

Chegaram aos montes

De todos os lados

Formas presas

Soltas

No ar...

A missão era especial:

Recuperar uma bola caída

No telhado do prédio em frente...

Gritei: saiam daí! É perigoso!

O menorzinho já

Se aventurava por uma calha suspeita

Nada escutavam...

Todos muito hábeis

Lépidos

Leves

Líricos

Trabalhando em equipe...

Saí para procurar ajuda

Um deles poderia morrer...

Voltei com os bombeiros

Mas não havia mais ninguém lá

Nem a bola...

 

 

Até bem pouco tempo atrás

Havia um sentimento

Um desejo, uma meta

Impulsionando tudo

Farejando arbustos

Lendo luminosos

Improváveis

À caça

De uma idéia

Absoluta

De uma palavra

Fatal

Até bem pouco tempo atrás

Todo o meu corpo se projetava

Na tela cega desse desejo

Cego

Agora vejo

A Praia

Do Flamengo

O Pão

De açúcar

A Baía

De Guanabara

E tudo o que sou

Navega

Na paisagem.